Nervosa e inconformada, uma jovem devota caminha apressadamente ao sair da estalagem. Suas vestes leves e esvoaçantes, brancas como uma nuvem de manha ensolarada se contrastavam com a escuridão da noite que seguia. Seria imprudente sair neste estado e neste horário quando se está em uma cidade de leis tão rígidas como é Milothian, a capital de Portsmouth, mas Lilian não está preocupada com isso.
Caminhando sem rumo certo, ponderando sobre o que aconteceu, a deusa da paz ora por Lilian para sua segurança, que a faz encontrar talvez não o melhor (com certeza poderia ser muito pior) grupo de pessoas. Uma milícia da cidade, sempre mantendo a lei e a ordem local, mas desta vez concentrados em procurar magos invasores. Um humano vestindo uma bela brunea sobre uma roupa de tonalidade roxa, montado em um cavalo forte, comandava outros quatro humanos vestidos igualmente, mas com roupas e armadura mais simples vasculhavam as ruas.
- Tu não deverias caminhar sozinha à noite. Devo lhe pedir que retorne à sua casa, magos estão à solta pela cidade.
A voz retumbante e grave soou como uma ordem, mesmo que as palavras fossem não tão duras como pronunciadas. Mas Lilian sabia que o grupo ao qual estava afiliada eram os magos dos quais procuravam, Beinion correndo perigo, poucos infratores estrangeiros são presos em Portsmouth, a maioria são humilhados e executados publicamente.
- Enquanto caminhava sob o luar, avistei um grupo diferente de pessoas, nenhum humano, deslocavam-se à saída sul da cidade. Não me chamaram a atenção até o momento em que passaram próximo a mim comentando algo sobre o Castelo Caerilech. Não pude perceber se eram magos, mas um deles portava um cajado.
Seu carisma e eloquência surgiram de forma oportuna naquele momento. A graça e a paz proporcionada pelos anos de devoção à soluções pacíficas, fundamentos de sua igreja, não impõe que necessariamente elas devam ser verdadeiras, isto daria tempo para que a situação terminasse sem violência.
- Estás à dizer a verdade, senhorita? Estamos à procura de um grupo com descrição parecida com esta. Não tivemos registros de entrada de nenhum grupo recentemente, talvez tenham entrado sorrateiramente, ou já estavam por aqui há algum tempo. Obrigado pela sua informação. Mantícoras! Vigiem a saída sul da cidade.
Sem desconfiar da jovem Lilian, em parte cego pela pressa em encontrar o grupo de magos, o comandante do grupo mercenário nomeado “Mantícora” com a pista errada de Lilian passa se perder ainda mais em sua busca.
A concentração da milícia mercenária ao sul enfraquece os pontos de vigília no restante da cidade, amanhã pela tarde já será descoberta a falsa dica de Lilian, então ela deve sair da cidade também, pois uma atitude destas, por melhor que sejam as intenções, é contra a lei de Potsmouth. Porém sua deusa jamais a deixará e sempre proverá por sua alma, e logo após a saída da tropa de mercenários, uma voz rouca sussurra na escuridão.
- Nuvem é mentirosa! O grupo de quem falas está em outro lugar, Bregma sabe porque estou à vigiar seus cavalos.
A criatura feiosa, baixa e cinzenta se aproxima de maneira amistosa, fitando-a com seus olhos grandes e amarelos.
- Está mesmo à vigiar? Então porque estás à bisbilhotar a conversa dos outros? Isto me parece inverdade sua.
Lilian com certo desprezo pela criatura olha com atenção, mas a criatura não lhe parece ameaçadora.
- Moeda! Dá moeda que Bregma mostra onde eles estão.
A jovem lhe entrega uma moeda e o pequeno goblin a leva ao local, uma igreja Asturian.
- Não me delate à eles, provavelmente irão sair da cidade hoje, fique de olho neles e me informe para onde vão.
Sendo prudente, mas generosa, Lilian entrega uma boa quantia em moedas ao goblin. Apesar de os Mantícoras se dirigirem ao sul, outros grupos mercenários estão circulando pela cidade.
Não podendo se arriscar em voltar ao grupo atualmente caçado, Lilian recorre à sua única esperança nesta cidade, seu primo Iberid Gerumei. Um integrante do Círculo de Gravardes, infiltrado nas tropas mercenárias.
- Primo Iberid! Preciso de sua ajuda e de seus companheiros. Os mercenários estão novamente à procura de magos na cidade e um deles é o pai de meu filho que está por vir. Eles precisam fugir da cidade.
Lilian conta toda a historia para Iberid, e pouco tempo depois Bregma aparece batendo à porta da casa.
- Os forasteiros estão indo para o Pilar de Rasthalhur, estão procurando alguém ou alguma coisa por lá.
- Muito bem Bregma, pegue estas moedas e siga-os de longe, não os perca de vista. – disse Lilian em tom de pressa.
- Enquanto isto prima Lilian, me ajude a vestir minha armadura. Irei rapidamente para o portão norte e facilitarei a saída de seus associados. Depois vou entrar em contato com Ahik, o líder do Circulo de Gravardes, para tomarmos as precauções necessárias, ele vai ficar satisfeito em obter informações sobre o pilar e os Graath que lá habitam.
O rosto de Iberid se torna cada vez mais sério ao colocar sua armadura, sentindo a tensão e o peso da situação.
- A família de nobres do norte não permitirá que ninguém se aproxime do pilar, uma grande batalha está por vir.
- Uma pena eu não poder tostar e me deleitar com suas cinzas. Se você não fosse minha fonte de tesouros, já teria lhe devorado meses atrás quando me foste enviada como sacrifício. Mas o acordo para mim está melhor.
A voz abrangente e ressoante de um dragão é praticamente inconfundível, o cheiro de pedra e enxofre no ar para os mais estudados pode denunciar a presença de um dragão vermelho, que instalou como seu covil no alto da colina, onde ao seus pés fica a tribo de draconatos do clã Escama Rubra.
A prisioneira draconata, antes líder de uma comunidade próspera, agora está nas mãos de um tirano.
- O que o faz pensar que não será derrotado pelo grupo que está por vir? Não vê que este é o plano de Barash com este acordo de vocês? Você está sendo manipulado por ele! Você vai matar meu filho!
O jovem dragão olha com desdém para sua prisioneira e nem mesmo sua paciência draconica está ajudando.
- Pensas que não estou ciente das reais intenções de Barash? Ele é um grande adversário e o respeito por isso, embora não possa derrotá-lo atualmente, o tempo o derrotará antes mesmo que eu me incomode com isso, e ao mesmo tempo irei me tornar mais forte. Para aumentar meu prestígio, o tesouro de seu povo me convém.
A situação da tribo de draconatos vermelhos ao pé montanha leste do reino de Sckharshantallas, próximo às Montanhas Sanguinárias piorou nos últimos meses. A chegada de um jovem dragão vermelho por intermédio de um aparente acordo com Barash é algo misterioso. Ninguém sabe realmente quais são os termos do acordo, apenas que estão todos ficando mais pobres pelos tributos à serem pagos à Sdarak. Alguns jovens descontentes com a liderança, desertaram do clã à procura dos Lanças de Sckharshantallas, um grupo especializado em caçar e matar dragões, mas nenhum deles retornou. Dizem de que Barash mantém os Lanças longe das terras da tribo com ações burocráticas.
Sdarak é um dragão vermelho jovem, mas mesmo jovem é poderoso o suficiente para espalhar o terror onde estiver. Astuto, não se deixou enganar por Barash e firmou um acordo temporário à alguns meses. Ele mesmo sabe dos perigos de um dragão vermelho permanecer em Sckharshantallas, o grande Sckhar poderia vir pessoalmente expulsá-lo ou destruí-lo, mas pretende permanecer pouco tempo, pois Barash não conseguirá manter os Lanças longe por muito tempo. Ao que parece, o tempo parece ter sido bem calculado e está satisfeito com sua decisão.
Deitado em sua ainda pequena pilha de tesouros no interior de uma das cavernas na montanha, olha para o draconato vigia próximo à entrada e depois novamente para Lavíniah, sua prisioneira.
- Tu não poderias permanecer em silêncio como o vigia? Seu intelecto não compreende a real situação e quais são meus planos. Simples e direto, eu que manipulo Barash, obviamente. Vou matar seu filho, o futuro líder de sua tribo para então tomar todos vocês como meus escravos nas Sanguinárias e não há nada que vocês possam fazer.
- Já estou farta de suas besteiras e planos mirabolantes. Seu ego é maior do que a montanha que estamos. Pensa que é tão poderoso, mas teme a presença dos Lanças e de Sckhar. Vá embora e deixe meu povo em paz!
Depois de tanto tempo encarcerada e vendo o sofrimento de seu povo, Lavíniah perde a razão e a noção do perigo ao insultar um dragão vermelho cara a cara. Sentindo o calor do corpo do dragão aumentar, chamas aparecem das narinas quando Sdarak virava sua cabeça em direção à Lavíniah que acorrentada nada poderia fazer.
- Você irá pagar por este insulto. Irei lhe proporcionar uma das piores formas de punição que podes imaginar. Aproveite enquanto ainda pode, sou paciente e posso esperar o tempo necessário para me vingar. Ainda tenho muito tempo até que chegue a hora, vou lhe trazer um presente pelo tempo que ficamos juntos.
Sdarak se levanta, as moedas do tesouro onde ficou deitado muitas ficaram presas à seu corpo, como se estivessem soldadas às escamas, principalmente nas dobras e juntas do corpo. Dizem os estudiosos e contam as lendas que o peito e a barriga dos dragões são as regiões mais vulneráveis de seus corpos e uma das razões deles juntarem tesouros, além de saciarem sua megalomania e de status entre os outros dragões, é a proteção que elas proporcionam ao ficarem alojadas nas partes vulneráveis.
Mesmo sem muita experiência, Sdarak possui grande conhecimento e uma mente tão afiada quanto suas garras. Ouvira histórias de seres das profundezas, de seus jogos de manipulações e de poderes voltados e focados neste campo de atuação. Aproveitando a viagem, conhece outros lugares, escolhendo um possível futuro covil para suas atividades. Um mês depois, consegue encontrar o que procura e retorna para a caverna na montanha.
- À tempo de receber meu tributo, pequeno, mas satisfatório. Eu lhe trouxe o presente como prometido, achei que iria demorar mais tempo para encontrar. Agora fique quieta e observe. Em breve seu sofrimento será pleno.
Uma estranha aranha enorme, parecendo um cérebro negro salta, enterrando suas patas afiadas no crânio de Lavíniah. Em pouco a feição de Lavínia muda, apática, sem vida, sem vontade, apenas a vontade de Sdarak.
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