quinta-feira, 22 de setembro de 2011

ESC # 09

O sol de Azgher se faz presente mais uma vez na vida do Reinado. Começando à leste na ilha de Tamu-ra, hoje totalmente tomada pela Tormenta, passando pelos reinos até atingir o ultimo reino do oeste, Hershey. Neste reino em uma taverna de porte respeitável, e uma das poucas não freqüentadas por minotauros vindos do reino de Tapista, acorda para mais um dia de trabalho uma bela senhora humana ruiva, chamada Ellyn.

Com o aumento da freqüência de tropas táuricas rodeando das cidades e vigiando as estradas, todo o povo de Hershey passa a se sentir de certa maneira acuados com a presença dos grandes e intimidadores minotauros. A segurança que antes era tão bem vista e recebida de bom grado está se tornando um leve desconforto, mas talvez seja apenas impressão. Talvez. A grande maioria ainda sente a tranquilidade e a vida pacata do reino, para eles, esta conspiração de traição táurica é impensada, os minotauros são honrados e jamais fariam isso, provavelmente são boatos espalhados pelos “Terroristas do Gorad”.

Os comerciantes sempre gostaram da presença dos minotauros, afinal, uma proteção a mais é muito bem-vinda, já que as tropas estão lá por uma pequena questão política entre os reinos, mas muito mais por uma questão de honra e dever para os minotauros. Claro que além da proteção, os minorauros eram bons clientes da principal atividade comercial do reino, a venda do Gorad.



Um halfling, de cabelo cinza, não pela idade, à altura do ombro e muitas sardas no rosto, vestindo roupas comuns de fazendeiro, entra na taverna “Novo Amanhecer” ainda logo pela manha, seguido por mais dois humanos, um de cabelos negros longos e desarrumados com a barba por fazer, também em vestes comuns e o outro humano se diferenciando de seus companheiros por uma veste mais bem trabalhada e uma capa de couro de boa qualidade, mas gasta pela passagem do tempo. Ellyn se aproxima para recebê-los pois nem mesmo nenhum funcionário ainda havia chegado, levemente assustada com o olhar dos três.

O que parecia ser o homem mais importante se aproxima de Ellyn enquanto os outros dois circulam no local vigiando o movimento lá fora. Ellyn assustada se prepara, mentalizando o poder concedido pelo Senhor do Outono, mas procura se acalmar. O homem se aproxima, seus olhos esbugalhados não contém a sanidade esperada.

- Meu nome é Gabuus Thorez, venho lhe trazer um alerta e fazer uma proposta de interesse mútuo.

Ainda nervosa pelo olhar insano e penetrante de Gabuus, Ellyn manteve a compostura e acenou levemente com a mão trêmula para que o homem prosseguisse.

- os fazendeiros estão cegos pelo brilho do ouro e não veem o perigo que está crescendo em nosso reino, tentamos de muitas formas alertar à todos, mas ninguém confia ou acredita em nós! Lhe digo, o Gorad é uma maldição, uma droga mágica, feita para viciar à todos e fazer as pessoas comprarem mais e mais.

Estranhamente o argumento daquele homem fazia sentido em certo ponto. O reino cresceu muito e a previsão de crescimento é ainda maior, tudo graças ao Gorad e única e exclusivamente a ele.

- Agora a proposta que venho lhe fazer é que considere o meu pequeno grupo, que nos nomeamos os “Terroristas do Gorad” e releve nossa presença em seu estabelecimento. Este grupo irá crescer e traremos bons negócios para cá. Verdade seja dita, já fomos expulsos de outros lugares, mas vejo potencial neste lugar.

A chegada dos poucos funcionários da taverna deu à Ellyn o impulso de recusar e expulsar aqueles homens de lá. Mas ao se levantar, apesar de ser verão, um vento gelado passou pela janela trazendo folhas secas de outono a seus pés e logo em seguida voam para longe. Ellyn sente um mau-presságio quanto a isso, como se algo estivesse faltando, algo fosse roubado. Caminhando até a janela, Ellyn vê uma tropa táurica passar, notando de relance, como se fosse uma ilusão, que o olhar dos minotauros estava muitíssimo diferente, parecido com o olhar destes três que adentraram sua taverna. Como se Ellyn pudesse sentir que tanto ela como os minotauros irão perder algo.

- Estou de acordo senhor Thorez. Ainda não acredito no senhor, mas gosto de ter o benefício da dúvida.

Sob a terra, um lugar mal iluminado, escuro como uma noite sem estrelas, e quente, mais quente que o interior de uma caverna em um vulcão fumegante, criaturas humanóides indistinguíveis estão dolorosamente ajoelhadas no solo de terra e pedras, com os olhos ardendo em função do ar tóxico que também corrói os seus pulmões e torna a língua seca. Seca também pelo enorme esforço em cavarem com as próprias mãos que se machucam mais e mais com as pedras duras e pontiagudas ao abrirem túneis e galerias, expandindo o território que se encontram.

Os novatos se deixam admirar pelas pedras extraídas, verdadeiras jóias, pedras raríssimas e muitíssimo preciosas de uma beleza que nunca se viu igual, mas logo são açoitados nas costas pelas maléficas criaturas que mantém todo este local sem esperança a estas almas condenadas ao sofrimento eterno por sua ganância. Não podem recolher o tesouro extraído e não podem se vingar de seus carrascos, total impotência.

Apesar da enorme quantidade de cavadores e proporcional numero de carrascos, o local é vastamente imenso e é preciso ainda mais cavadores para rastejarem neste território profano. Mas não é qualquer um que serve para estar aqui, o perfil certo é facilmente encontrado, mas o perfil ideal, o mais valorizado é mais raro e estes nem mesmo passam à removedores ou carregadores, sem pausas ou descanso, serão cavadores por toda a eternidade.

De Phlegethos, o quarto dos Nove Infernos, foi que o sentimento de raiva estava mais profundo na alma de uma criatura que lá se encontra, superando até mesmo sua ganância, mesmo que tenha perdido seu livre-arbítrio devido à condenação. Isto poderia transferir a alma de um inferno para outro, sempre para o mais fundo, e mesmo os diabos disputam as almas que possuem e não querem perdê-las.

Para o alívio dos deuses, os diabos não são oniscientes e onipresentes como eles, mas os mais poderosos podem se fazer sê-lo se qualquer criatura tenha em seus pensamentos os aspectos vis do diabo correspondente. A raiva, o ódio, a ira da alma desta criatura chamaram a atenção de Levistus, o arquidiabo regente de Stygia, o quinto inferno.

- Anastrianna, lhe restauro seu livre-arbítrio temporariamente apenas para que analise e aceite a proposta que irei lhe fazer. – disse uma voz clara e fria como uma manhã de inverno, mas toda segura de si.

Apenas por ter parado por um instante de cavar, perplexa pela nova situação, ainda em desespero a meio-elfa ruiva sofre chicotadas em sequência brutal e se põe novamente à cavar, ainda mais ciente do sofrimento que passa.

- sou Levistus, o regente de Stygia, o inferno congelado. Se quiseres servir à mim e sair de sua atual posição lhe ofereço esta oportunidade. – novamente a voz se pronunciou na mente de Anastrianna. – Sinto toda a sua ira e posso lhe dar a vingança que procura. Todos aqueles que deveriam estar e não estão com você, você pode trazê-los! Basta que aceite a minha oferta, esta é uma oportunidade única!

Todo o sofrimento ocupa quase toda a mente de Annastrianna, que responde rápida e prontamente:

- Eu aceito! Eu aceito, ó grande Levistus! Aceito quer coisa! Apenas tire-me daqui! – o desespero na voz de Anastrianna destoa dos gritos e lamentações que fazem parte do local, é alto, horripilante, quase vívido.

A alma de Anastrianna desaparece de Phlegethos. A falta desta alma é percebida imediatamente por Rarderak que se dirige para o palácio da arquibdiabo Fierna na cidade de Abyrimoch relatar o ocorrido.

- Vossa Excelência Fierna, venho lhe trazer a notícia de que Levistus de Stygia levou uma de nossas almas, isto está se repetindo cada vez mais, não que nos faça falta, mas é uma afronta aos nossos domínios.

- eu decido o que é uma afronta aos MEUS domínios. Pois bem, já estou informada, pode se retirar. Aliás, vá até Stygia e diga a Levistus que quero uma garantia de mil almas pela apropriação desta ultima. Tenho certeza que ele tem algum acordo com Baalzebu, Mephistopheles e Asmodeus e quero me aproveitar disso.

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Um novo começo nunca é fácil, saímos da rotina, novidades são encaradas como desafios e a expectativa de ser algo tão bom ou melhor do que se havia imaginado nos consome de ansiedade. Esta é uma síntese dos sentimentos de Kaliendir ao ingressar para a Grande Academia Arcana. Um local mágico, onde literalmente a magia está presente em todos os lugares, mas com uma vista não tão impressionante a olhos comuns.

Na cidade de Valkaria, capital do reino central Deheon, o eladrin Quarion, em suas vestes longas e vermelhas, ensina os intrínsecos caminhos tortuosos nos bairros simples da capital. Entre tantos outros casebres humildes, sem chamar a atenção, um deles com uma placa que diz “Escola de Magia”, envelhecida e até um pouco torta. A porta rangia e a madeira velha e pesada pendia tanto que está quase se soltando do batente. A emoção e ansiedade de Quarion contrastam com o estranhamento e a decepção de Kaliendir.

Seria este casebre, com um cômodo mal-cuidado, com  paredes com sustentação duvidosa e móveis de terceira mão, ocupado por um único homem comum como qualquer outro? Seria este homem o grande Talude, mestre máximo da magia? Estes pensamentos passam em um segundo na mente de Kaliendir até que seu pai cumprimenta rapidamente o homem comum e se dirige para a parede ao fundo do cômodo. Uma porta, de madeira simples, um pouco melhor do que a primeira, e dela nenhuma presença arcana pode ser sentida. Quarion se aproxima e sussurra uma palavra que nem mesmo Kaliendir ao seu lado pode ouvi-las.  A tranca, enferrujada em algumas partes vitais emite o som característico de destravamento.

Todos os sentimentos negativos e a primeira impressão de Kaliendir se esvaíram subitamente com a vista. Um terreno gramado até onde sua vista pode alcançar em meio à um vale, com pequenas florestas , o céu límpido, azul como jamais viu e nuvens tão brancas como algodão. No meio de tudo isto um enorme castelo, um complexo acadêmico, com gárgulas e grifos voando ao redor, torres imensas de onde saem bolas de fogo e raios pelas janelas.

- seja bem-vindo à Grande Academia Arcana – disse Quarion num tom quase emocionado, mas cheio de inspiração.

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